Luz da Fé

Luz da Fé

terça-feira, 2 de Setembro de 2014

O Bom Pastor alenta-nos, não quando nós queremos, mas quando é bom para nós. O ‘Spe Deus’ estava em queda e renasceu com muitos visitantes.

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O mundo, o homem e a fé

Na realidade, o homem separado de Deus reduz-se a uma só dimensão, a horizontal, e precisamente este reducionismo é uma das causas fundamentais dos totalitarismos que tiveram consequências trágicas no século passado, assim como a crise de valores que vemos na realidade actual. Obscurecendo a referência a Deus obscureceu-se também o horizonte ético, abrindo espaço ao relativismo e confirmando-se uma concepção ambígua da liberdade que em vez de ser liberatória acaba por ligar o homem a ídolos. As tentações que Jesus enfrentou no deserto antes da sua missão pública, representam bem aqueles "ídolos" que fascinam o homem, quando não vai além de si mesmo. Se Deus perder a centralidade, o homem perde o seu justo lugar, e não encontra a sua colocação na criação, nas relações com os outros. Não se extinguiu o que a sabedoria antiga evoca com o mito de Prometeu: o homem pensa que pode tornar-se ele mesmo "deus", dono da vida e da morte.

Diante deste quadro, a Igreja, fiel ao mandato de Cristo, nunca cessa de afirmar a verdade sobre o homem e sobre o seu destino. O Concílio Vaticano II afirma sinteticamente que: "O aspecto mais sublime da dignidade humana encontra-se na vocação do homem à união com Deus. Começa com a existência o convite que Deus dirige ao homem para dialogar com Ele: se o homem existe é porque Deus o criou por amor e, por amor, não cessa de o conservar na existência; e o homem não vive plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente este amor e não se entregar inteiramente ao seu criador" (Const. Gaudium et spes, 19).

Então, que respostas está a fé chamada a dar, com "doçura e respeito", ao ateísmo, ao cepticismo, à indiferença pela dimensão vertical, para que o homem do nosso tempo possa continuar a interrogar-se sobre a existência de Deus e a percorrer os caminhos que levam a Ele? Gostaria de mencionar alguns caminhos, que derivam tanto da reflexão natural, como da própria força da fé. Gostaria de os resumir muito sinteticamente em três palavras: o mundo, o homem e a fé.

A primeira: o mundo. Santo Agostinho, que na sua vida procurou a Verdade por muito tempo e foi arrebatado pela Verdade, escreveu uma página lindíssima e célebre, na qual disse: "Perscruta a beleza da terra, do mar, do ar rarefeito e onde quer que se expanda; perscruta a beleza do céu... e todas as realidades. Todas te responderão: olha para nós e vê como somos bonitas. A sua beleza é como um hino de louvor. Ora, estas criaturas tão bonitas, mas também mutáveis, quem as fez se não aquele que é a beleza inalterável? (Sermo 241, 2: PL 38, 1134). Penso que devemos recuperar e fazer recuperar ao homem de hoje a capacidade de contemplar a criação, a sua beleza, a sua estrutura. O mundo não é um magma amorfo, mas quanto mais o conhecemos e descobrimos os seus mecanismos maravilhosos, tanto mais vemos um desígnio, vemos que existe uma inteligência criadora. Albert Einstein disse que nas leis da natureza "se revela uma razão tão superior que toda a racionalidade do pensamento e dos ordenamentos humanos em comparação é um reflexo absolutamente insignificante" (O Mundo como eu o vejo). Portanto, um primeiro caminho que leva à descoberta de Deus é a contemplação da criação com um olhar atento.

A segunda palavra: o homem. É sempre de santo Agostinho a frase célebre com a qual diz que Deus é mais íntimo de mim de quanto eu o seja de mim mesmo (cf. Confissões III, 6, 11). A partir disto ele formulou o convite: "Não saias de ti mesmo, entra em ti mesmo: a verdade habita no homem interior" (De vera religione, 39, 72). Este é outro aspecto que corremos o risco de perder no mundo ruidoso e dispersivo no qual vivemos: a capacidade de reflectir, de meditar em profundidade e de detectar aquela sede de infinito que trazemos no íntimo, que nos impele a ir além e nos remete para Alguém que a possa satisfazer. O Catecismo da Igreja Católica afirma: "Com a sua abertura à verdade e à beleza, com o seu sentido do bem moral, com a sua liberdade e a voz da sua consciência, com a sua ânsia de infinito e de felicidade, o homem interroga-se sobre a existência de Deus" (n. 33).

A terceira palavra: a fé. Sobretudo na realidade do nosso tempo, não devemos esquecer que um caminho que leva ao conhecimento e ao encontro com Deus é a vida da fé. Quem crê está unido a Deus, está aberto à sua graça e à força da caridade. Assim a sua existência torna-se testemunho não de si mesmo, mas do Ressuscitado, e a sua fé não teme mostrar-se na vida quotidiana, está aberta ao diálogo que expressa profunda amizade pelo caminho de cada homem, e sabe dar esperança a necessidade de resgate, de felicidade e de futuro. De facto, a fé é encontro com Deus que fala e age na história e que converte a nossa vida diária, transformando a nossa mentalidade, juízos de valor, escolhas e acções concretas. Não é ilusão, fuga da realidade, refúgio cómodo, sentimentalismo, mas é participação de toda a vida e é anúncio do Evangelho, Boa Nova capaz de libertar o homem todo. Um cristão e uma comunidade que sejam activos e fiéis ao projecto de Deus que nos amou em primeiro lugar, constituem um caminho privilegiado para quantos vivem na indiferença e na dúvida acerca da sua existência e acção. Contudo, isto exige que o testemunho de fé de cada um se torne cada vez mais transparente, purificando a própria vida para que esteja em conformidade com Cristo. Hoje muitos têm uma concepção limitada da fé cristã porque a identificam com um mero sistema de crença e de valores e não com a verdade de um Deus que se revelou na história, desejoso de comunicar intimamente com o homem, numa relação de amor com ele. Na realidade, como fundamento de toda a doutrina e valor está o evento do encontro do homem com Deus em Jesus Cristo. O Cristianismo, antes de uma moral ou de uma ética, é o acontecimento do amor, é o acolhimento da pessoa de Jesus. Por isso o cristão e as comunidades cristãs antes de mais devem olhar e fazer olhar para Cristo, o verdadeiro Caminho que leva a Deus.

Bento XVI no Ângelus de 14.11.2012

Homem, "mendigo de Deus"

O tema proposto, prosseguindo o caminho de reflexão neste Ano da Fé, é sobre o homem que carrega em si um misterioso desejo de Deus. Desejo que, como diz o Catecismo da Igreja Católica, “está inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus”.

Muitos de nossos contemporâneos poderiam objetar dizendo que não sentem este desejo, que ele se tornou indiferente. Não é bem assim. Na verdade, este desejo nunca desapareceu e manifesta-se de diferentes formas no coração do homem.

Mas o que pode realmente saciar o desejo humano? As experiências fundamentais, como o amor e a amizade, mostram que em todo desejo humano está o eco de um desejo maior, que nunca se satisfaz plenamente. E esta dinâmica do desejo testemunha que o homem é um ser religioso.

Também na nossa época, aparentemente fechada ao transcendente, se pode abrir um caminho ao autêntico sentido religioso da vida, que mostre como a fé não é absurda ou irracional. É necessário promover uma espécie de “pedagogia do desejo” que, ensinando o sabor das satisfações mais autênticas da vida, e a busca continua dos bens mais altos, seja dirigida, não a sufocar o desejo, mas a purificá-lo e libertá-lo, para que possa alcançar sua verdadeira profundidade. Quando no desejo se abre uma fenda a Deus, este já é um sinal da presença da fé na alma, que é um dom de Deus.

(Bento XVI na Audiência geral de 07.11.2012)

Jesus Cristo feito Homem

Sugiro-vos que agora, ao meditarmos neste grande mistério de Deus feito homem, nos detenhamos em diversos momentos da vida terrena do Senhor. Porque Jesus não só teve um verdadeiro nascimento humano em Belém, como andou entre nós durante mais de trinta anos, levando uma vida plenamente humana. S. Josemaria levava-nos a agradecer-Lhe que tenha tomado a nossa carne, que a tenha assumido com todas as suas consequências. E insistia: Deus não se vestiu de homem, encarnou [3]. O Concílio Vaticano II recorda-nos que o Filho de Deus «trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado» [4].

[3]. S. Josemaria, Notas de uma meditação, 25-XII-1972.
[4]. Concílio Vaticano II, Const. Past. Gaudium et Spes, n. 22.

(D. Javier Echevarría, Prelado do Opus Dei na carta do mês de fevereiro de 2013)

O homem não é Deus

«Os homens procuram incessantemente, com o seu poder técnico, construir uma ponte para o céu, ou seja, tornar-se Deus pelas suas próprias forças. (…) Mas estas tentativas, que guiam o agir histórico do homem em todos os períodos, baseiam-se na não-verdade, na “repressão de verdade”. O homem não é Deus, é um ser finito e limitado e não pode, de modo nenhum nem por nenhum poder, fazer de si o que não é. Por isso todas estas tentativas, por muito gigantescas que sejam no início, têm de terminar com a queda na destruição. O seu terreno não se sustenta».

(Joseph Ratzinger - Olhar para Cristo)

Santa Doroteia, mártir, séc. II

Santa Doroteia nasceu em Cesaréia da Capadócia. Seus pais foram martirizados. De educação esmerada, aliava à riqueza invejáveis dotes e era sumamente bela. A jovem vivia em jejum e oração.

O governador Fabrício havia recebido ordens do imperador para exterminar todos os cristãos. Denunciada, ela foi uma das primeiras vítimas: apesar de não aparecer muito em público, era considerada uma verdadeira apóstola de Cristo, pelas actividades que desenvolvia junto aos cristãos. Foi intimada, perante o governador, a oferecer sacrifício aos deuses. Movida pela ousadia, ela confessou a sua fé destemidamente. Fabrício irritado ordenou que fosse estendida no cavalete, esbofeteando-a. Vendo que ela continuava a manifestar a sua alegria, formulou a sentença: "Ordenamos que Doroteia, jovem repleta de orgulho, que recusou sacrificar aos deuses imortais e conservar assim a sua vida, desejosa de morrer por um homem chamado Jesus Cristo, morra à espada."

Ao sair do pretório, um advogado, chamado Teófilo, à sua passagem lhe disse: "Doroteia, esposa de Cristo, envia-me do jardim de teu Esposo frutos ou rosas." Ela respondeu: "Crê de todo o coração no Deus por cujo nome sofro tudo isto, e te enviarei o que pedes." Chegando ao lugar do martírio, pediu ao carrasco instantes para rezar, e percebendo na multidão um menino, chamou-o e entregou-lhe em suas o lenço com que enxugava o rosto, dizendo: "Toma este lenço, e entrega-o ao Teófilo, o advogado, dizendo: Dorotéia, a serva do Senhor, te envia frutos do jardim do Cristo, seu Esposo e Filho de Deus, conforme teu pedido." O menino entregou o lenço na hora em que Doroteia foi decapitada. Teófilo, pegando entre as mãos o lenço, começou a dar graças a Deus. Tendo confessado Jesus Cristo, foi também condenado à decapitação, indo alegre para o suplício.

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

«Vieste para nos arruinar?»

Catecismo da Igreja Católica 
§§ 311-314


Os anjos e os homens, criaturas inteligentes e livres, devem caminhar para o seu último destino por livre escolha e amor preferencial. Podem, por conseguinte, desviar-se. De facto, pecaram. Foi assim que entrou no mundo o mal moral, incomensuravelmente mais grave que o mal físico. Deus não é, de modo algum, nem directa nem indirectamente, causa do mal moral. No entanto, permite-o por respeito pela liberdade da sua criatura e misteriosamente sabe tirar dele o bem. […] Do maior mal moral jamais praticado, como foi o repúdio e a morte do Filho de Deus, causado pelos pecados de todos os homens, Deus, pela superabundância da sua graça (cf Rom 5,20), tirou o maior dos bens: a glorificação de Cristo e a nossa redenção. Mas nem por isso o mal se transforma em bem.

«Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus» (Rom 8,28). O testemunho dos santos não cessa de confirmar esta verdade. Assim, Santa Catarina de Sena diz aos «que se escandalizam e se revoltam contra o que lhes acontece»: «Tudo procede do amor, tudo está ordenado para a salvação do homem, e não com nenhum outro fim.» E Juliana de Norwich: «Compreendi, pois, pela graça de Deus, que era necessário ater-me firmemente à fé […] e crer, com não menos firmeza, que todas as coisas serão para bem»: «Thou shalt see thyself that all manner of thing shall be well.»

Nós cremos firmemente que Deus é o Senhor do mundo e da história. Muitas vezes, porém, os caminhos da sua Providência são-nos desconhecidos. Só no fim, quando acabar o nosso conhecimento parcial e virmos Deus «face a face» (1Cor 13,12), é que nos serão plenamente conhecidos os caminhos pelos quais, mesmo através do mal e do pecado, Deus terá conduzido a criação ao repouso desse Sábado definitivo, em vista do qual criou o céu e a terra.

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

O Evangelho do dia 2 de setembro de 2013

Foi a Cafarnaum, cidade da Galileia, e ali ensinava aos sábados. Admiravam-se da Sua doutrina, porque falava com autoridade. Estava na sinagoga um homem possesso de um demónio imundo, o qual exclamou em alta voz: «Deixa-nos. Que tens Tu que ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder? Sei quem és: o Santo de Deus». Jesus o repreendeu, dizendo: «Cala-te e sai desse homem». E o demónio, depois de o ter lançado por terra no meio de todos, saiu dele sem lhe fazer nenhum mal. Todos se atemorizaram e falavam uns com os outros, dizendo: «Que é isto, Ele manda com autoridade e poder aos espíritos imundos, e estes saem?» E a Sua fama ia-se espalhando por todos os lugares da região.

Lc 4, 31-37

segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

Mario Joseph, Imã muçulmano convertido (vídeo em inglês com apoio de legendas nesta língua)

A Palavra de Deus é Jesus

“Não se anuncia o Evangelho para convencer com palavras sábias, mas com humildade, porque a força da Palavra de Deus é o próprio Jesus, e somente quem estiver com o coração aberto pode acolhê-lo”.

(...) "a Palavra de Deus é Jesus, o próprio Jesus” (...) "Por isso é tão importante ler, durante o dia, um trecho do Evangelho”.

“Para quê, para aprender? Não! Para encontrar Jesus, porque ele está em Sua Palavra. Cada vez que lemos o Evangelho, encontramos Jesus. E como receber esta Palavra? Como se recebe Jesus, isto é, com o coração aberto, humilde, com o espírito das Bem-aventuranças, porque Jesus veio assim, em humildade; veio em pobreza, veio com a unção do Espírito Santo”.

“Nós também, se quisermos ouvir e receber a Palavra de Deus, devemos rezar ao Espírito Santo e pedir a unção do coração, que é a unção das Bem-aventuranças”.

Papa Francisco - excertos homilia Casa de Santa Marta 01.09.2014

Tornou-se alimento, fez-se Pão

O maior louco que houve e haverá é Ele. Cabe maior loucura do que entregar-se como Ele se entrega e a quem se entrega? Porque loucura teria sido ficar como um Menino indefeso; mas, assim, ainda muitos malvados se enterneceriam, sem se atreverem a maltratá-lo. Pareceu-lhe pouco: quis aniquiliar-se mais e dar-se mais. Tornou-se alimento, fez-se Pão. – Divino Louco! Como te tratam os homens?... Eu próprio? (Forja, 824)

Lembremo-nos da experiência tão humana da despedida de duas pessoas muito amigas. Desejariam ficar sempre juntas, mas o dever – ou seja o que for – obriga-as a afastar-se uma da outra. Não podem, portanto, continuar uma junto da outra, como seria do seu gosto. Nestas ocasiões, o amor humano, que por maior que seja,é sempre limitado, costuma recorrer aos símbolos. As pessoas que se despedem trocam lembranças entre si, talvez uma fotografia onde se escreve uma dedicatória tão calorosa, que até admira que não arda o papel. Mas não podem ir além disso, porque o poder das criaturas não vai tão longe como o seu querer.

Ora o que não está na nossa mão, consegue-o o Senhor. Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, não deixa um símbolo, mas uma realidade. Fica Ele mesmo. Embora vá para o Pai, permanece entre os homens. Não nos deixará um simples presente que nos faça evocar a sua memória, alguma imagem que tenda a apagar-se com o tempo, como uma fotografia que a pouco e pouco se vai esvaindo e amarelecendo até perder o sentido para quem não interveio naquele momento amoroso. Sob as espécies do pão e do vinho está Ele, realmente presente, com o seu Corpo, o seu Sangue, a alma e a sua Divindade. (Cristo que passa, 83)

São Josemaría Escrivá

São Josemaría Escrivá nesta data em 1950

“Que sejas homem de oração, mortificado e eucarístico – escreve numa carta dirigida a Dick Rieman, o primeiro membro do Opus Dei dos Estados Unidos -: assim serás um bom fundamento nessa América grande e generosa […]. O primeiro: já pensaste na graça de Deus e na bendita responsabilidade que isso significa?”.

Vázquez de Prada III, cap. XX

(Fonte: site de S. Josemaría Escrivá http://www.pt.josemariaescriva.info/)

«Priest holes» (esconderijos de padres)

Chegou a altura de o povo britânico conhecer a sua história, é o que agora pensam os historiadores do Reino Unido. Não basta ler o que há escrito? J. J. Scarnbrick, Christopher Haig, Eamon Duffy, Diarmaid MacCulloch e outros académicos dizem que a história foi distorcida, ao serviço de uma mensagem, e é preciso recuperar as fontes. Tudo muda. Os novos livros fazem lembrar as obras antigas monumentais do Lingard, do Milner, ou a síntese do Cobbett, geralmente desprezadas como «propaganda católica».

O impacto deste novo olhar sobre os últimos quinhentos anos de história é imenso, porque, em certo sentido, é a própria identidade deste Povo que está em causa. Além disso, o movimento «revisionista» não é uma moda extravagante, é a unanimidade dos principais especialistas. Dizia-me um professor da universidade que a história do Reino Unido já não volta atrás, depois do revisionismo. Começa a aparecer um «pós-revisionismo», mas nada que ponha em causa aquela ruptura com a história habitual.

Ao mesmo tempo, é interessante notar que os revisionistas são revisionistas por razões científicas. Em geral, não alteraram as suas convicções religiosas. Alguns já eram católicos ou converteram-se ao catolicismo, mas a maioria continua a achar que o catolicismo é uma religião de pobres e italianos. O surpreendente – reconhecem os historiadores – é que esses marginais tenham realizado coisas tão extraordinárias, apesar de séculos de perseguição. Tiveram um papel determinante na educação e ainda hoje são maioria nas áreas da enfermagem e do apoio social, além de que produziram figuras de primeiro plano no âmbito da cultura.

A nova visão da história tem facetas inesperadas e até divertidas do ponto de vista turístico, como os «priest holes». A maioria já desapareceu, mas ainda se conservam muitas centenas, que se podem visitar. Estes buracos são cavidades no interior das paredes, ou poços por baixo do soalho, para esconder os padres que iam, de casa em casa, celebrar a Missa. A polícia vigiava (numas épocas mais do que noutras) e o jogo era a sério. Os disfarces e os sistemas para alimentar os padres dentro do buraco eram variados e imaginativos. Um passo em falso significava morte. Porque, desde o tempo de Henrique VIII, houve o cuidado de considerar que o catolicismo não era uma religião mas uma traição à pátria. Assim, evitava-se reconhecer a perseguição religiosa e as penas eram mais pesadas e sem apelo.

Li relatos de católicos ingleses que viajavam ao estrangeiro e ficavam escandalizados pela pressa com que se celebrava a Missa, mesmo em Roma. Imagino que estivessem habituados a Missas pouco frequentes, às escondidas, celebradas por um padre saído do «priest hole», alimentado através da gaveta da cómoda.

Ser padre, naquela época, era complicado. Os rapazes ingleses tinham de fugir do país para ir estudar para um seminário, em Roma, em França, em Espanha, na Bélgica. Até em Lisboa havia um seminário, na Travessa dos Inglesinhos, que funcionou até 1973. Para as famílias não serem perseguidas, os estudantes mudavam de nome, mal desembarcavam no continente. Em Roma, S. Filipe de Neri ajoelhava na rua, quando passava em frente do colégio dos ingleses e honrava-os como se tivessem sido mártires. Terminada a formação no seminário e ordenados, os padres regressavam clandestinamente à sua ilha e, de casa, em casa, dedicavam-se a atender os católicos. Às vezes, a coisa acabava mal. Mas, enquanto durava, era bom.

Os católicos ingleses nunca sabiam quando podiam voltar a confessar-se e assistir à Missa, de modo que queriam saborear esses momentos. No Continente, a Missa era tão rápida! Nem dava tempo para a pessoa se concentrar. Pelo menos, é o que os ingleses achavam.

José Maria C. S. André

«Correio dos Açores», «Verdadeiro Olhar», 31-VIII-2014

Confiança e esperança

Minha querida Meg, não posso deixar de confiar em Deus; contudo, sinto que o medo poderia bem afundar-me. Recordar-me-ei que S. Pedro, por causa da sua pouca fé, começava a ir ao fundo sob o efeito do vento e farei como ele: chamarei por Cristo e pedir-lhe-ei auxílio. Assim, espero que Ele me estenda a mão, me agarre e não me deixe soçobrar no mar alterado.

(Excerto carta escrita da prisão em 1534 por São Tomás Moro)

“Um mundo sem Cruz seria um mundo sem esperança”

A Cruz fala a todos os que sofrem – oprimidos, doentes, pobres, marginalizados, vítimas da violência - e assegura-lhes a esperança de que Deus pode transformar o seu sofrimento em alegria, o isolamento em comunhão, a morte em vida. A Cruz oferece uma esperança ilimitada ao nosso mundo decaído. É por isso que o mundo precisa da Cruz.

A Cruz não é um símbolo privado de devoção, não é um distintivo de sócio de um grupo qualquer. No seu significado mais profundo, não tem nada que ver com a imposição pela força de um credo ou de uma filosofia.

A Cruz fala de esperança, fala de amor, fala da vitória da não violência sobre a opressão; fala de Deus que eleva os humildes, dá força aos impotentes, faz superar as divisões, vencer o ódio com o amor.

Um mundo sem Cruz seria um mundo sem esperança, um mundo em que a tortura e a brutalidade permaneceriam desenfreados, o fraco seria explorado e a avidez teria a última palavra. A desumanidade do homem em relação ao homem manifestar-se-ia de modo ainda mais horrendo e não teria fim o círculo vicioso da violência. Só a Cruz põe um termo a tudo isso.

(Bento XVI na homilia da Missa celebrada em Nicósia em 05.06.2012)

Esperança

Sem dúvida que a esperança é um estado de alma, não um simples movimento interior de expectativa.

E o que é - aquilo que eu chamo - um estado de alma?

Trata-se de uma disposição permanente e duradoura que se vive independentemente dos acontecimentos exteriores.

Por outras palavras, o que acontece é observado criticamente tal como é e não o que, eventualmente possa parecer que é.

Por isso a esperança não assenta nem na concretização de algo que se deseja ou espera, nem no alheamento dessa realidade. A esperança leva a encarar os acontecimentos como fases num caminho para um fim desejado.

Também por isso, talvez, se costuma dizer que a esperança é a última a morrer.

Esperar é viver com perspectiva de futuro com os olhos postos no presente não ignorando ou tentando escamotear o que possa pensar-se que vai contra essa disposição.

Quem possui a virtude da esperança tem muito mais possibilidades de ser feliz que aquele que a não tenha.

Porquê? Porque o homem tende inevitavelmente para Deus que lhe incutiu uma ânsia de eternidade que é, como se compreende, a última felicidade.

Por isso a virtude da esperança é autêntico alimento já que se pode viver, perfeitamente, dela e, ao contrário, a sua ausência retira todo o sentido à vida.

(AMA, dissertação, 2010.05.19)

Para além da fé e da esperança

Ninguém acredita no que não espera, nem espera por aquilo em que não acredita. Cremos porque queremos e queremos porque cremos.

A fé é mais do que acreditar em Deus e a esperança muito mais do que esperar sentado que os sonhos se concretizem. Fé e esperança implicam mudanças na vida, exigem que nos levantemos do conforto e corramos rumo a algo maior do que aquilo que conseguimos compreender.

Acreditar não é uma atitude passiva de esperar que o mundo se alinhe para nos satisfazer, mas sim uma vontade ativa de criar o que se espera. De erguer com as próprias mãos aquilo em que se tem fé.

O Homem tende naturalmente para os bens futuros, incertos, mas cuja ocorrência depende, na maior parte dos casos de uma disposição determinada e de uma série de ações concretas. A expectativa é a base do esforço que luta pelo bem.

Esperamos porque acreditamos ou acreditamos porque esperamos? Não tem sentido. Esperança e fé são indissociáveis. Não existem como realidades distintas. Contêm elementos irracionais, mas ninguém acredita no que não espera, nem espera por aquilo em que não acredita. Cremos porque queremos e queremos porque cremos.

O Amor promete e garante uma vida que há de ser vivida, mas também que, ao longo do percurso até lá, cada passo seja apreciado mas sofrido... o sofrimento faz parte da prova do Amor. Até que ponto se acredita? Se espera? Se segue adiante sem chão por debaixo dos pés? Dói. Muito. Mas valerá mais que todas e cada uma das penas.

Eis a essência da eternidade: a inesgotabilidade do Amor. Há sempre (mais) Amor, ao ponto do tempo ser vencido e ultrapassado.

A vida valiosa existe para além do visível. Talvez por isso a esperança seja desesperante e a fé angustiante, afinal o Amor precisa de ser cego às coisas que passam... Porque o Amor é vida, no seu sentido último... aquela força que luta contra o que existe, para dar mais cor e luz ao mundo, que faz a semente brotar da terra, a árvore crescer, o animal procurar sempre forma de sobreviver, essa mesma força que leva o homem a sonhar ser tão grande quanto infinito é aquilo que espera e em que acredita. O que ama.

O Amor estende-se ao futuro. Por isso é esperança. Não há Amor sem amanhã. Nem amanhã sem Amor. Esperar é próprio do Amor. Sempre. Para além do desespero. Apesar da maior de todas as dores, o Amor confia, espera e acredita. O Amor é Amor, e só nele tudo fará sentido.

Fé e esperança implicam a existência de razões para além daquelas que a humana inteligência consegue abarcar. Afinal, a verdade pode repousar naquilo que hoje parece não fazer sentido algum. Eis a maior das belezas: uma luz, que ainda escondida, há de iluminar a mais tremenda das escuridões.

A humildade é a chave que abre os sonhos ao mundo, na medida em que só uma consciência que compreenda que não há nada que dependa só da vontade de quem espera pode lançar-se no desígnio de fazer na terra um céu.

É na fragilidade do momento presente, face à felicidade que se entrevê num futuro incerto e vertiginosamente livre, que o homem estabelece o claro sentido da sua fé, da sua esperança: Ajoelhando-se diante dos sonhos e amando com todo o seu ser, apesar dos pesadelos.

Talvez esperança e fé sejam apenas formas mais concretas do Amor andar neste mundo.

Sem Amor a existência é um buraco negro, vazia de luz, contraditória e privada do essencial: a eternidade.

O contrário da felicidade é o medo. Caminhar rumo à incerteza do amanhã implica um abandono confiante que, contra todo o desespero, ama o que não conhece e para ele caminha por entre infernos. Uma vontade simples e infinita de ser feliz. A fé. A esperança. O Amor.

José Luís Nunes Martins in 'i' online http://www.ionline.pt/opiniao/alem-da-fe-da-esperanca

O profeta da esperança

«Jeremias, o profeta pessimista (por causa da catastrófica derrota de Israel e do desabamento de todos os optimismos precedentes), revela-se como verdadeiro portador da esperança. Para os demais tudo deveria ter acabado com esta derrota*, para ele tudo começa de novo nesse momento. Deus nunca é derrotado e as Suas promessas não caem com as derrotas humanas, antes se tornam maiores, tal como o amor aumenta na medida em que o amado necessita dele».

*babilónios

(Joseph Ratzinger - Olhar para Cristo)

Exortação apostólica «Christifideles laici / Os fiéis leigos», §§ 13-14

São João Paulo II (1920-2005), papa 
«Ele ungiu-Me para anunciar a Boa-Nova»


Diz o Concílio Vaticano II: «Pela regeneração e pela unção do Espírito Santo, os baptizados são consagrados para serem uma morada espiritual». O Espírito Santo «unge» o baptizado, imprime-lhe a Sua marca indelével (cf 2Cor 1,21-22) e faz dele templo espiritual, isto é, enche-o com a santa presença de Deus, graças à união e à conformação com Jesus Cristo. Com esta «unção» espiritual, o cristão pode, por sua vez, repetir as palavras de Jesus: «O Espírito do Senhor está sobre Mim: por isso, Me ungiu». […]

«A missão de Cristo — Sacerdote, Profeta-Mestre, Rei — continua na Igreja. Todo o Povo de Deus participa nesta tríplice missão.» […] Os fiéis leigos participam no múnus sacerdotal pelo qual Jesus Se ofereceu a Si mesmo sobre a Cruz e continuamente Se oferece na celebração da Eucaristia. […] «Todos os seus trabalhos, orações e empreendimentos apostólicos, a vida conjugal e familiar, o trabalho de cada dia, o descanso do espírito e do corpo, se forem feitos no Espírito, e as próprias incomodidades da vida, […] se tornam em outros tantos sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo (cf 1Ped 2,5); sacrifícios estes que são piedosamente oferecidos ao Pai, juntamente com a oblação do corpo do Senhor, na celebração da Eucaristia.» […]

A participação no múnus profético de Cristo […] habilita e empenha os fiéis leigos a aceitar, na fé, o evangelho e a anunciá-lo com a palavra e com as obras. […] Vivem a realeza cristã, sobretudo no combate espiritual para vencerem dentro de si o reino do pecado (cf Rom 6,12) e depois, mediante o dom de si, para servirem […] o próprio Jesus presente em todos os seus irmãos, sobretudo nos mais pequeninos (cf Mt 25,40). Mas os fiéis leigos são chamados de forma particular a restituir à criação todo o seu valor originário. Ao ordenar as coisas criadas para o verdadeiro bem do homem, com uma acção animada pela vida da graça, os fiéis leigos participam no exercício do poder com que Jesus Ressuscitado atrai a Si todas as coisas e as submete, com Ele mesmo, ao Pai, de forma que Deus seja tudo em todos (cf 1Cor 15,28; Jo 12,32).

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

O Evangelho do dia 1 de setembro de 2014

Foi a Nazaré, onde Se tinha criado, entrou na sinagoga, segundo o Seu costume, em dia de sábado, e levantou-Se para fazer a leitura. Foi-Lhe dado o livro do profeta Isaías. Quando desenrolou o livro, encontrou o lugar onde estava escrito: “O Espírito do Senhor repousou sobre Mim; pelo que Me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres; Me enviou para anunciar a redenção aos cativos, e a recuperação da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a pregar um ano de graça da parte do Senhor”. Tendo enrolado o livro, deu-o ao encarregado, e sentou-Se. Os olhos de todos os que se encontravam na sinagoga estavam fixos n'Ele. Começou a dizer-lhes: «Hoje cumpriu-se este passo da Escritura que acabais de ouvir». E todos davam testemunho em Seu favor, e admiravam-se das palavras de graça que saíam da Sua boca, e diziam: «Não é este o filho de José?». Então disse-lhes: «Sem dúvida que vós Me aplicareis este provérbio: “Médico, cura-te a ti mesmo”. Todas aquelas grandes coisas que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, fá-las também aqui na Tua terra». Depois acrescentou: «Em verdade vos digo que nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Em verdade vos digo que muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando foi fechado o céu durante três anos e seis meses e houve uma grande fome por toda a terra; e a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma mulher viúva de Sarepta, do território de Sidónia. Muitos leprosos havia em Israel no tempo do profeta Eliseu; e nenhum deles foi curado, senão o sírio Naaman». Todos os que estavam na sinagoga, ouvindo isto, encheram-se de ira. Levantaram-se, lançaram-n'O fora da cidade, e conduziram-n'O até ao cume do monte sobre o qual estava edificada a cidade, para O precipitarem. Mas, passando no meio deles, retirou-Se.

Lc 4, 16-30