N. Sra. de Fátima

N. Sra. de Fátima
Fátima 2017 centenário das aparições de Nossa Senhora, façamos como Ela nos pediu e rezemos o Rosário diariamente. Ave Maria cheia de graça… ©Ecclesia

sábado, 15 de julho de 2017

Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz (breviário)

Onde há ódio, que eu leve o Amor;
Onde há ofensa, que eu leve o Perdão;
Onde há discórdia, que eu leve a união;
Onde há dúvida, que eu leve a Fé.

Onde há erro, que eu leve a Verdade;
Onde há desespero, que eu leve a Esperança;
Onde há tristeza, que eu leve a Alegria;
Onde há trevas, que eu leve a Luz.

Oh Mestre, fazei que eu procure menos
Ser consolado do que consolar;
Ser compreendido do que compreender;
Ser amado do que amar.

Porque é dando que se recebe;
É perdoando que se é perdoado;
É morrendo que se ressuscita
Para a Vida Eterna.

‘Nós queremos Deus!’

A Igreja católica foi a única instituição que apoiou e defendeu os polacos no seu processo de libertação do comunismo.

É sabido que a opinião pública internacional não gosta de Donald Trump e que os meios de comunicação social tudo fizeram para impedir a sua eleição como presidente dos Estados Unidos da América. Em vão. Se Watergate foi o expoente máximo do poder da comunicação social, ao lograr a demissão do presidente Richard Nixon, a eleição de Trump foi talvez o seu momento mais baixo porque, apesar do seu empenho em denegrir o candidato republicano, o eleitorado escolheu-o para a presidência dos USA.

Também na Europa é politicamente correcto apresentar Trump como uma figura menor, um sujeito brejeiro e ordinário que, para além de ser uma nulidade pessoal, é uma desgraça para os Estados Unidos da América e um perigo para a paz mundial. É paradoxal que não poucos ‘democratas’ se vejam obrigados a deplorar o sistema que possibilitou a eleição de um tal energúmeno…

Seja. Donald Trump não é, decididamente, o meu ídolo, nem reúne todos os predicados recomendáveis para um presidente dos Estados Unidos da América; mas concedo-lhe o benefício da dúvida e procuro ajuizá-lo pelos seus actos e não pelos preconceitos que alguns, maldosamente, alimentam a seu respeito.

Uma recente intervenção pública de Donald Trump fez agora história: o seu memorável discurso do passado dia 6, em Varsóvia. O presidente norte-americano falou na presença de muitos milhares de polacos e das principais autoridades do país, nomeadamente o prémio Nobel da Paz e principal obreiro, com São João Paulo II, da libertação da Polónia: Lech Walesa.

“Como a experiência polaca nos recorda, a defesa do Ocidente depende, em última instância, não só dos meios mas também da vontade do seu povo para triunfar. A questão fundamental do nosso tempo é se o Ocidente tem vontade de sobreviver”, afirmou Trump na histórica praça Krasinski, frente ao monumento à resistência polaca durante a ocupação nazi.

“A história da Polónia é a história de pessoas que nunca perderam a esperança, que nunca desistiram e que nunca esqueceram quem eram”, prosseguiu Trump. E acrescentou: “A nossa própria luta, em defesa do Ocidente, não começa no campo de batalha”, mas “começa nas nossas mentes, na nossa vontade e nas nossas almas”.

Trump elogiou a nação-mártir polaca, tantas vezes suprimida do mapa pelas apetências imperialistas dos seus vizinhos, a Alemanha e a Rússia, nomeadamente quando, por virtude do pacto von Ribbentrop-Molotov, foi sucessivamente invadida pelos exércitos nazi e soviético.

O regime comunista duraria até às primeiras eleições livres, em Junho de 1989, cinco meses antes da queda do muro de Berlim. Deste longo e doloroso processo de libertação, Donald Trump, destacou a acção decisiva de São João Paulo II, evocando a extraordinária vitalidade espiritual polaca. Como disse um mártir polaco, o bispo Miguel Kozal: “Pior do que uma derrota militar é o colapso do espírito humano”.

Sem liberdade, sem partidos ou sindicatos livres, sem direito à livre expressão, a Igreja católica foi a única instituição que apoiou e defendeu os polacos na sua luta contra o jugo soviético. Por isso, nos estaleiros de Gdansk, os mineiros em greve não só se confessavam publicamente como faziam questão que aí se celebrasse a Missa, por padres que pagaram com a vida a ousadia de dar apoio espiritual aos defensores da liberdade, como foi o caso de Jerzy Popieluszko, assassinado a 19-10-1984, pela polícia política do regime comunista polaco.

Na conquista da liberdade política e religiosa da Polónia, São João Paulo II foi determinante, como Trump teve a honestidade intelectual de reconhecer: “Quando, no dia 2 de Junho de 1979, um milhão de polacos encheu por completo a Praça da Vitória para a primeira Missa com o Papa polaco, todos os comunistas de Varsóvia devem ter percebido que, muito em breve, o seu regime opressivo se desmoronaria. Devem ter percebido isso no momento exacto em que, durante a homilia do Papa João Paulo II, um milhão de polacos, homens, mulheres e crianças, juntaram as suas vozes num clamor unânime. Um milhão de polacos que não exigiram bem-estar, que não pediram privilégios, mas que apenas disseram estas três simples palavras: Nós queremos Deus!”

Segundo o presidente dos Estados Unidos, “os polacos, os americanos e os europeus ainda gritam: Nós queremos Deus!”. Trump não só crê que assim é como também o disse diante de uma multidão que não cessava de o aplaudir, ao mesmo tempo que, repetidamente, vitoriava o seu nome.

O presidente norte-americano realçou ainda que “uma Polónia forte é uma bênção para a Europa, e uma Europa forte é uma bênção para o mundo” e frisou o compromisso do seu governo com a Polónia e com “uma Europa forte e segura”.

À Europa, mais do que dinheiro, riqueza ou armamento, falta espírito, falta alma. E, no nosso país, faltam estadistas que, conscientes da nossa história e identidade nacional, sejam capazes de galvanizar todas as vontades à volta de um ideal solidário que, sem demagogias nem nacionalismos serôdios, cumpra Portugal.

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada in Observador de 15.07.2017

Procura cingir-te a um plano de vida

Sujeitar-se a um plano de vida, a um horário... é tão monótono! – disseste-me. E respondi-te: há monotonia porque falta Amor. (Caminho, 77)

Procura cingir-te a um plano de vida com constância: alguns minutos de oração mental; a assistência à Santa Missa, diária, se te é possível, e a Comunhão frequente; o recurso regular ao Santo Sacramento do Perdão, ainda que a tua consciência não te acuse de qualquer pecado mortal; a visita a Jesus no Sacrário; a recitação e a contemplação dos mistérios do terço e tantas outras práticas excelentes que conheces ou podes aprender.

Mas estas práticas não se deverão transformar em normas rígidas ou em compartimentos estanques. Indicam um itinerário flexível, acomodado à tua condição de homem que vive no meio da rua, com um trabalho profissional intenso e com deveres e relações sociais que não podes descuidar, porque é nessas ocupações que prossegue o teu encontro com Deus. O teu plano de vida há-de ser como uma luva de borracha que se adapta perfeitamente à mão de quem a usa.

Não te esqueças também de que o que é importante não é fazer muitas coisas; limita-te com generosidade àquelas que possas cumprir no dia-a-dia, quer te apeteça quer não. Essas práticas conduzir-te-ão, quase sem reparares, à oração contemplativa. Brotarão da tua alma mais actos de amor, jaculatórias, acções de graças, actos de desagravo, comunhões espirituais. E tudo isto, enquanto te ocupas das tuas obrigações: ao pegar no telefone, ao subir para um meio de transporte, ao fechar ou abrir uma porta, ao passar diante de uma igreja, ao começar um novo trabalho, ao executá-lo e ao concluí-lo. Referirás tudo ao teu Pai Deus. (Amigos de Deus, 149)

São Josemaría Escrivá

O Evangelho de Domingo dia 16 de julho de 2017

Naquele dia, saindo Jesus de casa, sentou-Se à beira do mar. E juntou-se em volta d'Ele uma grande multidão de gente, de tal modo que foi preciso entrar numa barca e sentar-Se nela; e toda a multidão estava em pé na praia. E disse-lhes muitas coisas por parábolas: «Eis que um semeador saiu a semear. Quando semeava, uma parte da semente caiu ao longo do caminho; e vieram as aves do céu e comeram-na. Outra parte caiu em lugar pedregoso, onde não havia muita terra; e nasceu logo, porque não tinha profundidade de terra. Mas, saindo o sol, queimou-se; e, porque não tinha raiz, secou. Outra parte caiu entre espinhos; e os espinhos cresceram e a sufocaram. Outra parte, enfim, caiu em boa terra, e frutificou; uns grãos deram cem por um, outros sessenta, outros trinta. Quem tem ouvidos para ouvir, oiça». Chegando-se a Ele os discípulos, disseram-Lhe: «Por que razão lhes falas por meio de parábolas?». Ele respondeu-lhes: «Porque a vós é concedido conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não lhes é concedido. Porque ao que tem lhe será dado ainda mais, e terá em abundância, mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo em parábolas, porque vendo não vêem e ouvindo não ouvem nem entendem. E cumpre-se neles a profecia de Isaías, que diz: “Ouvireis com os ouvidos e não entendereis; olhareis com os vossos olhos e não vereis. Porque o coração deste povo tornou-se insensível, os seus ouvidos tornaram-se duros, e fecharam os olhos, para não suceder que vejam com os olhos, e oiçam com os ouvidos, e entendam com o coração, e se convertam, e Eu os cure”. Ditosos, porém, os vossos olhos, porque vêem e os vossos ouvidos, porque ouvem. Em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram. «Ouvi, pois, vós, o que significa a parábola do semeador: A todo aquele que ouve a palavra do reino e não lhe presta atenção, vem o espírito maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que recebeu a semente ao longo do caminho. O que recebeu a semente no lugar pedregoso, é aquele que ouve a palavra, e logo a recebe com gosto; porém, não tem em si raiz, é inconstante; e, quando lhe sobrevém a tribulação e a perseguição por causa da palavra, logo sucumbe. O que recebeu a semente entre espinhos, é aquele que ouve a palavra; porém, os cuidados deste mundo e a sedução das riquezas sufocam a palavra e fica infrutífera. O que recebeu a semente em boa terra, é aquele que ouve a palavra e a compreende; esse dá fruto, e umas vezes dá cem, outras sessenta, e outras trinta por um».

Mt 13, 1-23

São Josemaría Escrivá nesta data em 1932


No verso de uma estampa da Virgem Maria escreve: “A santidade «grande» consiste em cumprir os «pequenos» deveres de cada instante”.

SÓ O AMOR É VENCEDOR!

Estamos outra vez perante a barbárie, em que alguém, (cobardemente, é bom que tal se diga), fere e mata o seu semelhante (N. 'Spe Deus': atentado de Nice em 2016).
E pretende fazê-lo em nome de um qualquer deus.

Mas, afirmo-o com toda veemência e certeza, em nome de Deus não o faz com certeza, mas em nome de Satanás, embora provavelmente não tenha plena consciência disso mesmo.

Porque Deus, só há Um, (e é o mesmo dos cristãos, dos muçulmanos, dos judeus, dos homens de boa vontade), e é sempre e só amor.
Se o não fosse, não era Deus!

E precisamente porque Deus é amor e só amor, é que, perante esta barbárie, Ele mesmo nos lembra ao coração: Reza pelas vitimas, mas não te esqueças de rezar pelos algozes!

E é aqui que Lhe perguntamos: 
Senhor, Tu disseste que a “porta era estreita”, mas por vezes, parece-nos tão estreita que não conseguimos passar por ela!

E Tu, Senhor, respondes-nos, cheio de amor: 
Como queres tu entrar no Meu Reino, com ressentimento, com raiva, com ódio ao teu semelhante, no teu coração?
Por isso te peço que rezes, não só pelas vitimas, mas também pelos algozes. Se o coração deles não se mover com a oração, pelo menos o teu há-de mover-se pela força do Espírito Santo que está presente na oração.

Mas, Senhor, como lidar com esta gente que mata o seu semelhante com tal crueza, sem o mínimo sentimento de compaixão?

E Tu, Senhor, mais uma vez respondes: 
Que a justiça dos homens seja exercida, (mas sem se tornar igual à barbárie dos agressores), porque nunca te esqueças que só o amor vencerá, porque só o amor é vencedor.

Marinha Grande, 15 de Julho de 2016

Joaquim Mexia Alves

Catequese de Bento XVI sobre São Boaventura (excerto)

Como já disse São Boaventura, entre os vários méritos, teve o de interpretar autêntica e fielmente a figura de São Francisco de Assis, por ele venerado e estudado com grande amor. Em particular, na época de São Boaventura uma corrente de Frades Menores, chamados "espirituais", afirmava que com São Francisco fora inaugurada uma fase totalmente nova da história, aparecera o "Evangelho eterno" de que fala o Apocalipse, que substituía o Novo Testamento. Este grupo afirmava que a Igreja já tinha esgotado o seu papel histórico e seria substituída por uma comunidade carismática de homens livres guiados interiormente pelo Espírito, isto é pelos "Franciscanos espirituais". Na base das ideias de tal grupo havia os escritos de um abade cisterciense, Joaquim de Fiore, falecido em 1202. Nas suas obras, ele afirmava um ritmo trinitário da história. Considerava o Antigo Testamento como era do Pai, seguido pelo tempo do Filho, o tempo da Igreja. Haveria que esperar ainda a terceira era, a do Espírito Santo. Assim, toda a história devia ser interpretada como uma história de progresso: da severidade do Antigo Testamento à relativa liberdade do tempo do Filho, na Igreja, até à plena liberdade dos Filhos de Deus, no período do Espírito Santo, que enfim seria inclusive o período da paz entre os homens, da reconciliação dos povos e das religiões. Joaquim de Fiore suscitou a esperança de que o início do novo tempo viria de um novo monaquismo. Assim, é compreensível que um grupo de Franciscanos julgasse reconhecer em São Francisco de Assis o iniciador do novo tempo e, na sua Ordem, a comunidade da nova época a comunidade do tempo do Espírito Santo, que deixava atrás de si a Igreja hierárquica, para começar a nova Igreja do Espírito, desligada das velhas estruturas.

Portanto, havia o risco de um gravíssimo mal-entendido da mensagem de São Francisco, da sua fidelidade humilde ao Evangelho e à Igreja, e tal equívoco incluía uma visão errónea do Cristianismo no seu conjunto.

São Boaventura, que em 1257 se tornou Ministro-Geral da Ordem Franciscana, encontrou-se diante de uma grave tensão no interior da sua própria Ordem precisamente por causa de quem defendia a mencionada corrente dos "Franciscanos espirituais", que se inspirava em Joaquim de Fiore. Exactamente para responder a este grupo e dar nova unidade à Ordem, São Boaventura estudou com atenção os escritos autênticos de Joaquim de Fiore e os que lhe eram atribuídos e, tendo em consideração a necessidade de apresentar corretamente a figura e a mensagem do seu amado São Francisco, quis expor uma justa visão da teologia da história. São Boaventura enfrentou o problema na sua última obra, uma colectânea de conferências aos monges do estúdio parisiense, que ficou incompleta e chegou até nós através das transcrições dos auditores, intitulada Hexaëmeron, isto é uma explicação alegórica dos seis dias da criação. Os Padres da Igreja consideravam os seis ou sete dias da narração sobre a criação como profecia da história do mundo, da humanidade. Os sete dias representavam para eles sete períodos da história, mais tarde interpretados também como sete milénios. Com Cristo teríamos entrado no último, ou seja no sexto período da história, ao qual depois se seguiria o grande sábado de Deus. São Boaventura supõe esta interpretação histórica do relatório dos dias da criação, mas de um modo muito livre e inovativo. Para ele, dois fenómenos do seu tempo tornam necessária uma nova interpretação do curso da história.

O primeiro: a figura de São Francisco, homem totalmente unido a Cristo até à comunhão dos estigmas, quase um alter Christus, e com São Francisco a nova comunidade por ele criada, diferente do monaquismo até agora conhecido. Este fenómeno exigia uma nova interpretação, como novidade de Deus que surgiu nesse momento.

O segundo: a posição de Joaquim de Fiore, que anunciava um novo monaquismo e um período totalmente novo da história, indo além da revelação do Novo Testamento exigia uma resposta.

Como Ministro-Geral da Ordem dos Franciscanos, São Boaventura viu logo que com a concepção espiritualista inspirada por Joaquim de Fiore, a Ordem não era governável, mas caminhava logicamente rumo à anarquia. Para ele, havia duas consequências:

A primeira: a necessária prática de estruturas e de inserção na realidade da Igreja hierárquica, da Igreja real, tinha necessidade de um fundamento teológico, também porque os outros, aqueles que seguiam a concepção espiritualista, mostravam um aparente fundamento teológico.

A segunda: mesmo tendo em consideração o realismo necessário, não se podia perder a novidade da figura de São Francisco.

Como respondeu São Boaventura à exigência prática e teórica? Da sua resposta posso dar aqui só um resumo muito esquemático e incompleto, em alguns pontos:

1. São Boaventura rejeita a ideia do ritmo trinitário da história. Deus é um para toda a história e não se divide em três divindades. Portanto, a história é uma só, embora seja um caminho e segundo São Boaventura um caminho de progresso.

2. Jesus Cristo é a última palavra de Deus nele Deus disse tudo, doando-se e proclamando-se a si mesmo. Mais do que Ele mesmo, Deus não pode dizer, nem doar. O Espírito Santo é Espírito do Pai e do Filho. O próprio Cristo diz do Espírito Santo: "...ensinar-vos-á tudo o que vos tenho dito" (Jo 14, 26), "receberá do que é meu para vo-lo anunciar" (Jo 16, 15). Portanto, não existe outro Evangelho mais excelso, não há outra Igreja a esperar. Por isso, até a Ordem de São Francisco deve inserir-se nesta Igreja, na sua fé, no seu ordenamento hierárquico.

3. Isto não significa que a Igreja é imóvel, fixa no passado, e que nela não possa haver novidade. "Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt", as obras de Cristo não regridem, não vêm a faltar, mas progridem, diz o Santo na Carta De tribus quaestionibus. Assim São Boaventura formula explicitamente a ideia de progresso, e esta é uma novidade em relação aos Padres da Igreja e a uma grande parte dos seus contemporâneos. Para São Boaventura, Cristo não é mais, como era para os Padres da Igreja, o fim, mas o centro da história; com Cristo, a história não termina, mas começa um novo período.Outra consequência é a seguinte: até àquele momento predominava a ideia de que os Padres da Igreja fossem o ápice absoluto da teologia, e que todas as gerações seguintes só pudessem ser suas discípulas. Até São Boaventura reconhece os Padres como mestres para sempre, mas o fenómeno de São Francisco dá-lhe a certeza de que a riqueza da palavra de Cristo é inesgotável e que até nas novas gerações podem despontar novas luzes. A unicidade de Cristo garante também novidade e renovação em todos os períodos da história.

Sem dúvida, a Ordem franciscana assim sublinha pertence à Igreja de Jesus Cristo, à Igreja Apostólica, e não pode construir-se num espiritualismo utópico. Mas ao mesmo tempo é válida a novidade de tal Ordem em relação ao monaquismo clássico, e São Boaventura como eu disse na catequese precedente defendeu esta novidade contra os ataques do Clero secular de Paris: os Franciscanos não têm um mosteiro fixo e podem estar presentes em toda a parte para anunciar o Evangelho. Precisamente a ruptura com a estabilidade, característica do monaquismo, a favor de uma nova flexibilidade, restituiu à Igreja o dinamismo missionário.

Nesta altura, talvez seja útil dizer que até hoje existem visões segundo as quais toda a história da Igreja no segundo milénio teria sido um declínio permanente; alguns vêem o declínio já imediatamente após o Novo Testamento. Na realidade, "Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt", as obras de Cristo não regridem mas progridem. O que seria a Igreja, sem a nova espiritualidade dos Cistercienses, dos Franciscanos e Dominicanos, da espiritualidade de Santa Teresa de Ávila e de São João da Cruz, e assim por diante? Até hoje é válida esta afirmação: "Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt", progridem. São Boaventura ensina-nos o conjunto do discernimento necessário, mesmo severo, do realismo sóbrio e da abertura a novos carismas doados por Cristo no Espírito Santo, à sua Igreja. E enquanto se repete esta ideia do declínio, há também outra ideia, o "utopismo espiritualista" que se repete. Com efeito, sabemos que depois do Concílio Vaticano II alguns estavam convictos de que tudo era novo, como se houvesse outra Igreja, que a Igreja pré-conciliar tivesse terminado e teríamos tido outra, totalmente "outra". Um utopismo anárquico! E graças a Deus os timoneiros sábios da barca de Pedro, Papa Paulo VI e Papa João Paulo II, por um lado defenderam a novidade do Concílio e por outro, ao mesmo tempo, defenderam a unicidade e a continuidade da Igreja, que é sempre Igreja de pecadores e sempre lugar de Graça.

4. Neste sentido São Boaventura, como Ministro-Geral dos Franciscanos, assumiu uma linha de governo em que era bem claro que a nova Ordem não podia, como comunidade, viver à mesma "altura escatológica" de São Francisco, em quem ele vê antecipado o mundo futuro, mas guiado ao mesmo tempo por um realismo sadio e pela coragem espiritual tinha que se aproximar o mais possível da máxima realização do Sermão da Montanha, que para São Francisco foi a regra, mesmo tendo em consideração os limites do homem, marcado pelo pecado original.

Vemos assim que para São Boaventura governar não era simplesmente agir, mas era sobretudo pensar e rezar. Na base do seu governo encontramos sempre a oração e o pensamento; todas as suas decisões derivam da reflexão, do pensamento iluminado pela oração. O seu contacto íntimo com Cristo acompanhou sempre o seu trabalho de Ministro-Geral e por isso ele compôs uma série de escritos teológico-místicos, que expressam a alma do seu governo e manifestam a intenção de orientar interiormente a Ordem, isto é de governar não só mediante mandatos e estruturas, mas guiando e iluminando as almas, orientando para Cristo.

Destes seus escritos, que são a alma do seu governo e mostram o caminho a percorrer, tanto ao indivíduo como à comunidade,gostaria de mencionar um só, sua obra-prima, o Itinerarium mentis in Deum, que é um "manual" de contemplação mística. Este livro foi concebido num lugar de profunda espiritualidade: o monte La Verna, onde São Francisco tinha recebido os estigmas. Na introdução, o autor explica as circunstâncias que deram origem a este seu escrito: "Enquanto eu meditava sobre as possibilidades da alma se elevar a Deus, apresentou-se-me entre outros aquele acontecimento admirável ocorrido naquele lugar com o bem-aventurado Francisco, ou seja a visão do Serafim alado em forma de Crucifixo. E meditando sobre isto, dei-me conta imediatamente de que tal visão me oferecia o êxtase contemplativo do próprio pai Francisco e ao mesmo tempo o caminho que a ele conduz" (Itinerário da mente em Deus, Prólogo, 2 em Obras de São BoaventuraOpúsculos Teológicos/1, Roma 1993, pág. 499).

Assim, as seis asas do Serafim tornam-se o símbolo de seis etapas que conduzem progressivamente o homem ao conhecimento de Deus através da observação do mundo e das criaturas e através da exploração da própria alma com as suas faculdades, até à união total com a Trindade por meio de Cristo, à imitação de São Francisco de Assis. As últimas palavras do Itinerarium de São Boaventura, que respondem à pergunta sobre o modo como se pode alcançar esta comunhão mística com Deus, deviam fazer alcançar o fundo do coração: "Se agora desejas saber como acontece isto (a comunhão mística com Deus), interroga a graça, não a doutrina; o desejo, não o intelecto; o gemido da oração, não o estudo da letra; o esposo, não o mestre; Deus, não o homem; as trevas, não a clareza; não a luz, mas o fogo que tudo inflama e transporta em Deus, com as fortes unções e os afetos ardentíssimos... Portanto, entremos nas trevas, silenciemos os anseios, as paixões e os fantasmas; passemos com Cristo Crucificado deste mundo para o Pai para, depois de o ter visto, dizermos com Filipe: basta-me isto" (Ibid., VII, 6).

Queridos amigos, aceitemos o convite que nos é dirigido por São Boaventura, o Doutor Seráfico, e coloquemo-nos na escola do Mestre divino: ouçamos a sua Palavra de vida e de verdade, que ressoa no íntimo da nossa alma. Purifiquemos os nossos pensamentos e as nossas acções, a fim de que Ele possa habitar em nós, e nós possamos ouvir a sua Voz divina, que nos atrai para a verdadeira felicidade.

(© L'Osservatore Romano - 13 de Março de 2010)

S. Boaventura, Bispo, Doutor da Igreja, 1218-1274

São Boaventura nasceu em Bagnorea, actualmente Bagnoregio, no ano de 1218. Ingressou na Ordem fundada por São Francisco, que, à semelhança dos dominicanos, já se tinham estabelecido em Paris, Oxford, Cambridge, Estrasburgo e em outras universidades europeias.

Um dia, Frei Egídio em sua simplicidade indagou ao Frei Boaventura como poderia salvar-se, se desconhecia a ciência teológica. Ele respondeu-lhe: "Se Deus dá ao homem somente a graça de poder amá-lo, isso basta... Uma simples velhinha poderá amar a Deus mais do que um professor de teologia."

São Boaventura foi discípulo de Alexandre de Hales, em Paris, permanecendo nessa cidade inicialmente como professor de teologia e posteriormente como ministro geral dos Frades Menores, tendo sido eleito para este cargo com apenas trinta e seis anos de idade. Recusou a consagração episcopal várias vezes por humildade, mais foi eleito cardeal recebendo a sede de Albano Laziale.

São Tomás de Aquino e São Boaventura foram convidados pelo Papa Gregório X a prepararem o segundo Concílio de Lião, mas São Tomás de Aquino faleceu alguns meses antes da abertura do concílio que aconteceu em 7 de Maio de 1274. A caridade é o fundamento da doutrina teológica que Frei Boaventura ensinou com sua palavra e escritos. O livro "O itinerário da mente para Deus" está entre os seus livros mais conhecidos.

Foi ele quem escreveu: "Não basta a leitura sem a unção, não basta a especulação sem a devoção, não basta a pesquisa sem maravilhar-se; não basta a circuspecção sem o júbilo, o trabalho sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humanidade, o estudo sem a graça."São Boaventura morreu no dia 15 de Julho do ano de 1274.

(Fonte: Evangelho Quotidiano)

O Evangelho do dia 15 de julho de 2017

«Não é o discípulo mais que o mestre, nem o servo mais que o senhor. Basta ao discípulo ser como o mestre e ao servo como o senhor. Se eles chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus familiares! «Não os temais, pois, porque nada há encoberto que não se venha a descobrir, nem oculto que não venha a saber-se. O que Eu vos digo às escuras, dizei-o às claras e o que é dito ao ouvido, pregai-o sobre os telhados. «Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode lançar a alma e o corpo na Geena. Porventura não se vendem dois passarinhos por uns tostões? E, todavia, nem um só deles cairá no chão sem a permissão de vosso Pai. Até os próprios cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois: vós valeis mais que muitos passaritos. «Todo aquele, portanto, que Me confessar diante dos homens, também Eu o confessarei diante do Meu Pai que está nos céus. Porém, quem Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante do Meu Pai, que está nos céus.

Mt 10, 24-33